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Autor Tópico: Entre Reinos e Taifas  (Lida 7405 vezes)

FMartins

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Entre Reinos e Taifas
« em: 15 Agosto 2013 04:15:54 am »

Há uns tempos atrás, a malta com quem tenho vindo mais a jogar veio com a ideia de se fazerem uns jogos de escaramuças medievais usando umas regras simples (Songs of Blades and Heroes) e, claro, figuras à escala 1/72.

A opção inicial consistia em fazer escaramuças baseadas no “tradicional” tema Vikings vs Anglo-Saxões, usando figuras da Strelets (razoáveis) e da Svezda (excelentes!). Mas sinceramente, bárbaros contra bárbaros era um tema que não me entusiasmava de todo... para mais quando poderíamos optar por temas “cá da casa”, nomeadamente o centenário tema da Reconquista...

Pouco tempo depois de trocarmos umas ideias, o Artur Ramos trouxe umas caixas da Hät com figuras belissimamente esculpidas retratando mouros andaluzes, almorávidas e cristãos “espanhóis” (irrita-me esta designação adoptada pelos “camones”! É que “Spanish” não é o mesmo que “Hispanic”, que deveria ser  - aliás, é! - a designção correcta para estes soldados “das Espanhas”, e não “de Espanha”).

Eis as amostras das figuras da infantaria:
http://www.plasticsoldierreview.com/Review.aspx?id=1451
http://www.plasticsoldierreview.com/Review.aspx?id=1436
http://www.plasticsoldierreview.com/Review.aspx?id=1440

As figuras de comando são estas:
http://www.plasticsoldierreview.com/Review.aspx?id=1832

Infelizmente, o Artur não trazia a caixa das figuras de comando mouras, nem as da cavalaria dos dois lados.

Antes de falar mais, tenho de dizer uma coisa: como referi atrás, a escultura destas figuras é simplesmente excelente, com a pose, pormenores e correcção histórica no seu melhor. No melhor pano cai a nódoa, contudo, e o plástico em que elas foram feitas tem quase a consistência do queijo flamengo, ou seja, é demasiado mole e muito difícil de trabalhar. Uma porcaria. É realmente de lamentar...

Depois de ter demorado décadas a “limpar” as figuras das marcas de molde, iniciei as lides, começando com os almorávidas.
Quem eram estes tipos? A explicação é longa por isso toca de ler, seus malandros!

http://en.wikipedia.org/wiki/Almoravid_dynasty

Pronto, está explicado! Gostaram? Espero bem que sim.

Em suma, os almorávidas eram fanáticos religiosos, intolerantes para com os próprios muçulmanos “normais”, tinham a mania, religiosamente justificada, de tapar a boca, seriam muito piedosos e pouco dados a “luxos” e demais ostentações, e teriam, entre os seus guerreiros, muitos pretos recém convertidos que viriam ainda imbuídos (na minha opinião) de superstições ligadas a amuletos e “fórmulas mágicas” tais como os que ainda se encontram, nos dias de hoje, em muitos países muçulmanos da África Negra.

E será que o Islão permite essas “magias” e amuletos? Bom, permitir não permite:

http://islamzpeace.com/2009/02/09/using-good-luck-charms-or-amulets/


Mas será que são usados? Bem... como diria o Doutor Marcelo, “Ser, são. Mas não podem. O que é que lhes acontece? Nada!”, etc.

http://en.wikipedia.org/wiki/Gris-gris_(talisman)

http://en.wikipedia.org/wiki/Hamsa


Já agora, os almorávidas também foram os responsáveis pela introdução, na Europa, do convento-fortaleza (ribat) no qual voluntários jihadistas se dedicavam à oração e à guerra contra os não-muçulmanos.

http://en.wikipedia.org/wiki/Ribat


Também em Portugal houve, pelo menos, um ribat, na região de Aljezur:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Castelo_de_Arrifana


Anos mais tarde, seriam os cristãos a contra-atacar com a ideia dos monges-guerreiros das Ordens do Templo, Hospital, Santiago da Espada, Alcântara/Avis, Calatrava...


Para pintar os puritanos dos almorávidas, inspirei-me nos panos tradicionalmente usados pelo povão de Marrocos (tons castanhos, cinzas, algumas cores um pouco mais alegre, padrões listados na vertical...), em símbolos “mágicos” berberes e, claro, nas lindíssimas ilustrações do Angus McBride (RIP), entre outras.
“Eize-os”:



O chefe da moirama. O escudo redondo, na verdade, vinha na caixa de comando dos cristãos ibéricos, sendo que esta figura tinha um escudo em forma de “gota de água”. Troquei os escudos e usei o redondo nesta figura e o escudo que ela tinha coloquei-o num líder cristão.


Fanáticos berberes


Mais guerreiros. Olha a “Mão de Fátima” no escudo. É um um amuleto? É!




Olha tanto “símbolo mágico”!



Quanto aos mouros andaluzes, contrastando com a “pobreza” do exército Africano, optei por usar cores mais vivas, mais alegres, reflectindo uma terra igualmente mais rica e muito mais desenvolvida em termos culturais, herdeira de ricas tradições romano-visigóticas, bizantinas, sírias e egípcias. Enfim, cultura, que é o que marca a diferença.

Quem eram, então, estes andaluzes? Basicamente, são os descendentes de árabes iemenitas e sírios, berberes semi-convertidos (carradas deles!) e descendentes de cristãos, uns convertidos (muladis), outros ainda e fielmente agarrados à sua fé (moçárabes), todos eles com uma longa História para contar.
Toca a ler, mais uma vez!

http://en.wikipedia.org/wiki/Emirate_of_C%C3%B3rdoba
http://en.wikipedia.org/wiki/Muladi
http://en.wikipedia.org/wiki/Mozarab

Mas nesta época, o Emirado de Córdova já era chão que tinha dado uvas, e o al-Andaluz estava dividido em Taifas, que eram ... ah, toca lá a ler mais um pouco, seus malandros!
 
http://en.wikipedia.org/wiki/Taifa

Uma das Taifas que me interessa especialmente é a de Sevilha, entre outras coisas porque, a dada altura, Sevilha controlava Silves, que foi onde viveu o rei-poeta Al-Mu'tamid ibn Abbad, o tal da “Evocação de Silves” e que viria a ser destronado pelo almorávidas de que falei mais acima.

Outra das Taifas fixes era a de Mértola, a um dado tempo conquistada pelo al-Mu’tadid (o implacável pai do al-Mu’tamid) e que depois voltou, efemeramente, a ser independente sob ibn Qasi até que os almôadas “repuseram a normalidade”.

Por fim, temos a Taifa de Badajoz, que controlou, a um dado tempo, Santarém e Lisboa, para além de Évora e demais cidades do sul de Portugal.

Reflectindo toda esta variedade e riqueza, pintei roupas com debruados e escudos com desenhos mais elaborados, sejam eles escritos, seja eles com temas zoomórficos.

Já agora... representar animais é proibido pelo Islão? Bem, parece que sim...

http://en.wikipedia.org/wiki/Aniconism_in_Islam


... mas... sabem como é! “Doutor Marcelo dixit”!

Tecido islâmico no Museo de San Isidoro, Espanha



Eis então os guerreiros da Taifa, uma bela mistura de tipos vestidos “à árabe”, outros vestidos “à ibérico”, com guardas ricamente vestidos, guerreiros profissionais, guerreiros mais pobrezinhos, guerreiros religiosos e, claro, o sempre eterno povão, que se junta à festa sempre que pode, ou melhor, sempre que não se pode escapar à lide, porque estas coisas de ir para a guerra são uma maçada e há sempre alguém que se magoa...





Jihadistas à frente dos guerreiros profissionais




Olha os motivos nos escudos: uma águia e um leão









Chegamos, finalmente, aos cristãos do norte da Península. Mas que cristãos são estes? Não se tratam (apenas) de homens vindos do Norte da Europa, como o Henrique, o Raimundo e respectivas hostes e descendência, mas sim de homens autóctones, nativos, indígenas desta terra, da região de Riba Coa, Coimbra, Minho, Trás os Montes e Galiza, a par dos herdeiros da tradição moçárabe (ler o link acima sff), leia-se, romano-visigótica, dado que os moçárabes, por estas alturas, afluíam cada vez mais às terras do norte, fugindo da pressão, vide perseguição, que lhes era imposta pelos cada vez mais intolerantes muçulmanos. Já leram algo sobre o Conde Sisnando Davides? Não? Então leiam:

http://en.wikipedia.org/wiki/Sisnando_Davides

Os meus cristãos foram pintados como parte da hoste de Geraldo Geraldes, O Sem Pavor, o herói e aventureiro português de meados do século XII. Uma outra excelente opção teria sido a de pintar a hoste de um bravo de entre os bravos, que era o Gonçalo Mendes da Maia, O Lidador, camarada de armas de D. Afonso Henriques, e que enquanto Fronteiro do Reino em Beja, saiu aos mouros para comemorar, em estilo, o seu 95º aniversário! Essa acabaria por ser a sua última farra, mas a festa acabou em grande, com a hoste moura, inicialmente mais numerosa, a terminar o dia derrotada e em inferioridade numérica. Enfim, assim eram as rave parties de outrora...


Os padrões dos escudos foram inspirados em imagens ibéricas cristãs contemporâneas.
Inicialmente fui buscar inspiração nas famosas Tapeçarias de Bayeux, que retratam a conquista de Inglaterra pelo exército normando do Duque Guilherme, mas concluí que aqueles desenhos nos escudos, apesar de serem muitos bonitos, tinham mais a ver com a imagética escandinava do que com a imagética romano-visigótica peninsular, sobretudo naquela parte que diz respeito aos dragões e afins.
















Já agora, cumpre dizer que, à época, a heráldica estava nos seus primórdios e ainda não havia um esquema padronizado, regras estabelecidas, e portanto acredito que cada um escolheria o seu “boneco” e mais nada. Padronização viria com o séc. XIV, e mesmo assim... se há dúvidas, é só ver em que época é que as quinas laterais das armas de Portugal deixaram de estar deitadas (sinal de menoridade, vide bastardia), passando para a vertical.
Foi no reinado de D. João II, eis a época!
Ah pois é!

Eis então os guerreiros cristãos:

A bandeira do Geraldo ostenta um lobo. Na minha ideia, um leão é, em termos heráldicos, um animal demasiado "real" (da mesma forma que uma águia é “imperial”). Dado que eu queria desenhar um animal e como não estava propriamente tentado a desenhar um dragão (é um animal demasiado “nortenho”, no sentido escandinavo do termo, é claro!), achei que um lobo, animal um pouco mal visto em termos populares, refletiria, ainda assim, o espírito e o "não muito nobre" modus operandi de Geraldo Geraldes, que era, para todos os efeitos, um verdadeiro “lobo da planura” alentejana






O alferes monta um magnífico ruço, Geraldo monta um belíssimo Lusitano Palomino. Só não é de Alter porque a escola ainda não existia...



Os "bellatores" profissionais, com um líder e um veterano de longa data e de farta barba grisalha...







O povo, que é giro e isso... notem as cores das roupas, em tecido mais ordinário do que o dos “bellatores”.



A guerra não é apenas um jogo de azar... mas convém não ter "galo"!


Frei Tomás. Não faças o que ele diz, faz o que ele faz. Por debaixo daquele hábito esconde-se um autêntico leão mas... não entremos em pormenores  ;)


A Hoste







Agora "só" falta basea-los condignamente, mas isso será feito com tempo, ou em seu devido tempo.

Haveis gostado?

Espero que sim.


« Última modificação: 15 Agosto 2013 12:50:35 pm por FMartins »
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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #1 em: 16 Agosto 2013 08:46:27 am »

Sim gostei  e muito e vou usar muito do que aqui esta como referencia, mas...


MAS...


Numa época em que tens um jogo brilhante excatamente a essa escala de representação (uma figura um homem) , que é jogado por mais 7 ou 8 pessoas só em Lisboa

Numa época em que figuras a de plastico a 25mm (mesmo as da Hat) são tão baratas como as de 15mm em metal

Numa época em que tens uma tremenda facilidade de comunicar e de ver o que se faz por esse mundo, pais e cidade fora

Numa época em que se prepara um primeiro grande encontro das pessoas que jogam a essa escala de respresentação..



Parte-me o coração ver  o talento, imaginação e empenho gastos em projectos "só para nos dois brincarsmos... Um dia talvez..."


Se ao menos essa figuras (Que estão brilhantemente pintadas e pesquisadas) fossem a 25mm, podias jogar com elas no evento de SAGA que a AJSP vai organizar. Assim... ficas com elas na prateleira.

Pena...


(para fazer Andaluses em SAGA peaga-se nas regras e Batleboard de Bretões e está feito. Sem tirar nem por! Para os cristão é só pegar nos Normandos)




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FMartins

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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #2 em: 28 Agosto 2013 07:16:36 pm »

Sim, poderia ter optado pelos 28mm, mas gosto mais de 1/72. Também quem joga Saga poderia ter optado pela escala 1/72, mas nao foi essa a sua opção...


De qualquer modo, suspeito que esta minha rapaziada ainda irá ser bastante utilizada ao longo dos tempos (o Artur já está a trabalhar em figuras similares), e em todo o caso, mesmo que "se fiquem pela prateleira" (o que duvido), serão sempre belas peças a decorarem-me a sala!  ;)

Se quiseres poderás transcrever este artigo para outros Fora, pois em termos de pesquisa ele está razoável e poderá ser útil para outros jogadores, independentemente da escala utilizada.
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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #3 em: 04 Setembro 2013 12:39:41 pm »

SAGA também se joga em outras escalas (15mm 20mm)
este sábado vamos conversar sobre estas figuras, como já informei vem aí o periodo de El Cid para SAGA.
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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #4 em: 04 Setembro 2013 09:06:02 pm »

Eu já calculava que sim, mas a malta optou por investir em gigantones...  :P

Este Sábado também vou ver se levo umas regras que acabei de adquirir, Tempos Medievais. Pode ser que interessem.

Em todo o caso, espero que tenhas apreciado o artigo. É verdade que não pintas nem nada que se pareça, mas sempre poderás aprender qualquer coisinha, ainda que pequenininha...  :)
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JPargana

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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #5 em: 05 Setembro 2013 12:36:24 pm »

Abû al-Kasim Ahmad Ibn Qasî naceu em Silves e foi morto em Silves.
além de governar Mertola também levantou bandeira (Taifa) em Silves, foi lider religioso (Sufi) e politico.

em relação a regras de escaramuças da idade média estou com o João Especial, devemos investir em Saga, porque existem novos jogadores e podemos encontrar jogadores que gostem de outras experiencias, na AJSP.

neste momento já estou a um bom nivel de conhecimento das regras, só necessito de começar a jogar, para treinar a mecanica do jogo.
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FMartins

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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #6 em: 05 Setembro 2013 11:16:39 pm »

O Ibn Qasi acabou sendo trucidado pelas massas, sob acusação de traição e conluio com um cristão (D. Afonso Henriques).

O sufismo é uma prática religiosa islâmica interessante e bastante apelativa aos recém-convertidos (muladi), pois frequentemente integra elementos de sincretismo religioso. Foi através do sufismo que se operaram bastantes conversões na Ásia Central, nos Balcãs e certamente também aqui na Península Ibérica.

Vê se convences o Lopes a jogar Saga ou algo do género. Ele é capaz de gostar e sempre varia um bocado em relação a FoG.
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JPargana

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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #7 em: 06 Setembro 2013 08:47:03 am »

o Lopes vai ver na sua organica da Warhammer medieval fantasia (Bretões) deve encontrar figuras para fazer um Warband de Normandos e tem de certeza figuras para fazer Templários, para a série 1ª Cruzada.

assim que os Vikings estiverem pintados começamos a jogar. 8)
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FMartins

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Re: Entre Reinos e Taifas
« Responder #8 em: 12 Setembro 2013 08:57:32 pm »

Não sei se os Bretonnians darão para essa época, parece-me que têm equipamento mais tardio (séc. XIII). Por acaso tenho ums duas ou três figuras dessas, para um dia pintar alegremente  :)

Já anunciei no Facebook o torneio de Saga, dia 22 de Setembro.
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