Un punto di vista italiano sul Big-Game
2010
O objectivo que
tinha sido dado aos italianos não era pêra doce. Tratava-se de conquistar duas
pontes e uma casa no cimo de um monte, ao mesmo tempo que tinham de aguentar
uma grande quinta num planalto.

Cientes dessa necessidade, Sua Majestade o Rei Eugénio, o Marechal McDonald e o
General Pino deram as ordens necessárias aos homens, e estes iniciaram os
preparativos para a batalha: foram ao rio buscar água, andaram pelos bosques a
recolher madeira, arearam as panelas e começaram a confeccionar la pasta.
Entretanto, chegaram as imensas hordas dos austríacos. Batalhões atrás de
batalhões, todos vestidos de um branco imaculado, muito bonitos, pareciam
autênticos vendedores de gelati venezianos. Uma
beleza!
Do outro lado do rio ficaram duas divisões austríacas, prontinhas para fazer
maldades aos nossos ragazzi. Uma outra divisão
concentrou-se em frente ao planalto, também ela pronta para atacar.


Durante uns momentos os homens olharam-se desafiadores. Os italianos sabiam
perfeitamente ao que os austríacos vinham: eles queriam surripiar la pasta aos bravos italianos! Os austríacos, aquela
cambada de gatunos esfomeados, não podiam ver ninguém feliz com a sua comidinha
que logo queriam abarbatá-la! Sacanas! Ah não, aquilo
não se fazia! Mas os italianos estavam preparados para vender caro o seu
repasto…
Foi então que tudo piorou: os austríacos apontaram os seus canhões e começaram
a chatear os italianos com os seus tiros! A paciência acabara de se esgotar!
Como choviam balas por cima das cabeças dos bambini,
estes apontaram os seus próprios canhões e começaram a dar a resposta. E
aconteceu aquilo que tinha de acontecer: alguém pode comparar a pontaria de
vendedores de gelati à pontaria de verdadeiros
soldados transalpinos? Os batalhões de infantaria austríacos para lá da ponte
começaram a sofrer as primeiras baixas e a breve trecho um deles eclipsou-se.
Entretanto, no flanco esquerdo italiano, as coisas passavam-se de outra forma.
É que, neste flanco, estava posicionada uma sólida divisão de infantaria
italiana, ancorada no monte e num bosque, e uma divisão de cavalaria ligeira
polaca. Os polacos são gente algo brava (quando inspirada) mas de pouca
confiança, sobretudo quando bebem a sua vodka. Em compensação, têm belas
mulheres! Frente a esta divisão montada e ao bosque estavam duas divisões de
cavalaria austro-russas, com demasiados dragões,
hussardos e chevaux legérs para
o gosto dos nossos bambini. E bem depressa essas
divisões se puseram em marcha. Houve um ligeiro momento de esperança quando uma
delas divisões parecia dirigir-se para o bosque, onde os nossos legieri, que recolhiam lenha, já esfregavam as suas mãos de
contentes ante e a possibilidade de fazer prosciuto de
cavalo, mas os ragazzi levaram com um balde de água
fria quando, ao longe, viram surgir, aos berros e a agitar as mãos, o Marechal
de Campo austríaco em pessoa. A cavalaria fez marcha atrás e depois curvou à
direita, para contornar o nosso bosque.
Sinceramente, isto não se faz e vai contra todos os princípios da guerra e do
cavalheirismo. Claramente, o Marechal inimigo não era um cavaliere!
Entretanto, no flanco direito e no centro, os bambini
esperavam deitados pelo inimigo. Uns jogavam às cartas, outros conversavam,
outros ainda olhavam contemplativamente para as vivandeiras,
seiúdas e de largas ancas, que preparavam o ragú di pomodoro
e ralavam o parmegiano… mas de repente, um
sobressalto! Os vendedores de gelati encheram-se de
coragem e começaram a atravessar as pontes! Opa! Afinal iria haver acção, mas
apenas os artilheiros tiveram o seu quinhão de pólvora. Os batalhões austríacos
começaram a passar, uns atrás dos outros, e a artilharia italiana concentrou-se
no tiro à queima-roupa sobre as formações inimigas…
De uma forma algo poética, aquela imagem lembrava a polpa di
pomodoro que as vivandeiras
preparavam…


Este tiroteio, este ribombar dos canhões, misturado com o crepitar das chamas
das fogueiras e o ferver da água nas panelas, contrastava com o trote dos
cavalos no flanco esquerdo italiano.
Os austro-russos aproximaram-se rapidamente da
divisão polaca que assistia apreensivamente ao avanço deste rolo compressor. Os
legieri que tinham ocupado o bosque, ao verem o
inimigo a aproximar-se, tomaram posições junto à orla florestada e mal os
cavaleiros inimigos se aproximaram, começaram a fazer fogo. Este foi o mote
para os polacos se lançarem à carga e desfazerem alguns regimentos inimigos.
Mas entretanto, mais regimentos de cavalaria adversária se aproximavam e a
situação começava a ficar complicada.

Vendo isto, o Comandante-Chefe do exército veio em pessoa às nossas posições e
disse para avançarmos em direcção às pontes. Simultaneamente, foram postas à
nossa disposição três divisões, uma da Guarda e elites italianas (um primor!),
uma da Jovem Guarda francesa (enfim, franceses…) e outra de cavalaria ligeira
(outra!) polaca (polacos… palavras para quê?).
Novamente veio a insistência para as tropas italianas tomarem as pontes, mas Sua
Majestade pensou cá para os seus botões que havia assuntos mais urgentes para
resolver: é que tinha chegado um momento crucial nas operações que era o de se
temperar o ragú com sal, pimenta e outras
especiarias! Ah sim, este era um momento fundamental, e qualquer descuido
poderia ditar o desastre. Um pouco de tempero a menos e o almoço ficaria
insípido, e um pouco a mais e os intensos e distintos sabores dos vegetais
refogados, do manjericão e do tomate ficariam apagados pelo excesso de tempero.
Por isso, era preciso ter calma, sobretudo ter muita calma…
Na esquerda, entretanto, os combates sucediam-se e os polacos, com uma ajudinha
das balas italianas, conseguiram eliminar uma divisão de cavalaria austríaca.
Esforço inglório pois, acto contínuo, sofreram o embate de uma fresquíssima
divisão de cavalaria russa. E enquanto chegavam os nossos reforços, vimos
surgir no horizonte um enorme rolo de compressor de granadeiros russos e de
duas gigantescas divisões de couraceiros austro-russos!
O combate tinha-se transformado verdadeiramente numa luta de vida ou de morte.
E pelo menos neste sector da frente o destino parecia estar traçado, pois mais
adiante uma divisão de infantaria polaca parecia estar a dar as últimas ante
uma horda de russos.

Voltando aos sectores onde a acção realmente se passava, o almoço foi servido.
Os ragazzi estenderam as toalhas axadrezadas,
colocaram os pratos e talheres, abriram as garrafas de vinho e deliciaram-se
com o repasto. Estava uma maravilha! E enquanto a suculenta pasta era enrolada
com a ajuda das colheres para depois ser comida, os homens riam-se, comentavam
e arregalavam os olhos quando as vivandeiras, com os
seus decotes abertos, se debruçavam para servir os copos com o maravilhoso
vinho das terras de Itália. Estava-se no Paraíso!
Os Granadeiros da Guarda Real, chegados mesmo a tempo de tomar parte da acção,
ufanaram-se de terem pilhado uma adega austríaca e, armados em finos, abriram
umas garrafas de vinho de Graz. A reacção dos bravos
granadeiros reflectiu bem o sabor daquela beberagem:
um esgar, uma expressão de paladar acre e sensaborão, prova de que aquela
bebida das montanhas não se comparava ao que se produzia em terras
mediterrânicas. Mas sem querem dar parte de fracos, os granadeiros insistiram
em beber o vinho pilhado…

Ao mesmo tempo que os homens resolviam estas coisas importantes, os
artilheiros, entre uma e outra garfada, arrasavam a tiro de metralha as colunas
austríacas que insistiam em atacar. Juntinhas, bem juntinhas, aquelas formações
eram alvos demasiados fáceis para os artilheiros, que faziam uma autêntica
chacina entre o inimigo. Junto às pontes amontoava-se carne picada como se se estivesse num talho.
Os batalhões inimigos estavam a desaparecer como poeira levada pelo vento, mas
os vendedores de gelati continuavam a avançar… e os
italianos assistiam ao espectáculo reclinados sobre a erva, uns mordiscando
umas palhas, outros dando umas baforadas nos seus cachimbos, outros ainda
rematando o repasto com um amaretto e outros ainda
fazendo o seu capuccino.
Terminado o almoço, e já satisfeitos, Sua Majestade viu que era chegado o
momento de dar as ordens. Mensageiros foram enviados, os Generais de Divisão
foram instruídos e… Avanti!
Mas no mesmo momento em que no flanco direito os homens sacudiam a roupa antes
de se lançarem ao assalto das pontes, no flanco esquerdo as coisas corriam
realmente mal. É que uma das divisões polacas acabava de desaparecer sob o peso
do inimigo e outra, a metade dos seus efectivos, para lá caminhava. Os
granadeiros russos entraram pelo bosque adentro e os nossos legieri,
apanhados traiçoeiramente, levaram uma sova memorável. Só a Jovem Guarda aguentava
agora este flanco.
Ao longe, na planície outrora ocupada pelos polacos já só se viam os penachos
das barretinas russas.
Realmente, estes polacos têm belas mulheres, mas pouco mais para além disso...
No sector das pontes, os austríacos iam subindo o monte ocupado pelas nossas
tropas, e à medida que paulatinamente avançaram, paulatinamente iam sendo
despachados pela metralha dos nossos canhões e pelos tiros dos nossos escaramuçadores. Era um pagode!

Na outra ponte, os Granadeiros da Guarda sofreram os primeiros tiros da
artilharia austríaca e logo em seguida lançaram-se ao assalto da ponte, a meio
da qual estava um batalhão austríaco. Os Granadeiros avançaram com toda a força
mas… o mau vinho dos Alpes fez sentir os seus efeitos
e uma violenta diarreia assolou os nossos bravi!

Incapazes de dar luta, foram derrotados pelos gelatieri,
o que foi algo de ignominioso. Mas depois de recuperarem a boa forma, os
Granadeiros voltaram-se para o inimigo e avançaram, mas entretanto já o seu
lugar tinha sido ocupado pelos Velites os quais, firmemente,
se lançaram ao assalto.
E foi neste momento que a sucessão de baixas entre os austríacos lhes ditou o
destino: é que se o primeiro batalhão a ser contactado pelos Velites esteva ainda em excelente forma, todos os outros
que o apoiavam na retaguarda estavam a dar as últimas. Ora, como o batalhão
sobre a ponte simplesmente evaporou-se ante a carga à baioneta dos nossos bravi (basicamente, levou um piparote!) os restantes, já
vacilantes, eclipsaram-se em catadupa.
Já com mais de metade de baixas, os austríacos não foram capazes de aguentar a
consistência das suas duas divisões, as quais fugiram espavoridas sob o olhar
de agonia dos seus generais.
De repente, de um momento para o outro, diante das tropas italianas havia
apenas espaços abertos. Os nossos bravissimi olharam
para os lados, olharam para as pontes, olharam uns para os outros, encolherem
os ombros e avançaram para ocupar as pontes.
Aos Granadeiros foi-lhes dada a honra de ocupar e guardar a ponte pela qual
tantos dos seus homens (três ou quatro, um deles com a unha do dedo lascada!)
haviam sido sacrificados.

No flanco esquerdo, os jovens guardas franceses aguentavam as investidas da
cavalaria e dos granadeiros russos e no centro os nossos bambini
preparavam-se para receber a investida da única divisão austríaca que restava.
A cavalaria italiana, um bocado enfastiada de estar parada, precipitou-se sobre
esta divisão, e enquanto o Diabo esfrega um olho, trucidou três batalhões de
vendedores de gelati.


Mais a Leste, no flanco direito italiano, não chegavam os sons distantes dos
tiros e do choque das baionetas. Aqui apenas se ouviam os gemidos dos feridos,
cada vez mais abafados à medida que os homens faleciam.
Mas sobrepondo-se ao cheiro da pólvora e do sangue, os nossos bravos Velites sentiram o aroma doce e característico do pão a ser
cozido numa casa lá no alto do monte. Sabendo que aquele, sim, era um
importante objectivo a ser tomado (antes que outros se apoderassem do pão!), os
nossos Velites apertaram as correias da suas mochilas, verificaram se tinham as cabaças e os
odres cheios de bom vinho, reuniram as suas rações de gorgonzola,
prosciuto e olivi, e
iniciaram a subida do monte, marchando alegremente ao som dos tambores e dos
pífaros, cantando e assobiando, as suas barretinas de pêlo balanceando ao ritmo
da marcha…


FINE